Palestrante
Descrição
Na Pré-história recente do centro de Portugal, o conceito de espaço sagrado materializa-se de forma particularmente clara em dois tipos de contextos arqueológicos que, apesar das diferenças morfológicas e deposicionais, parecem partilhar fundamentos simbólicos comuns: os monumentos megalíticos e as grutas. Estas são utilizadas para fins funerários e rituais. Ambos os registos refletem modos estruturados de relação com a paisagem, com os mortos e com sistemas de crenças que articulam memória, ancestralidade e territorialidade.
O megalitismo traduz uma sacralização explícita do território através da construção de arquiteturas monumentais duradouras. A implantação destes monumentos revela padrões de visibilidade, intervisibilidade e controlo simbólico da paisagem, sugerindo que a escolha dos locais obedecia a critérios que transcendem a funcionalidade imediata. Estes espaços tornam-se focos de agregação social, memória coletiva e legitimação territorial, funcionando como âncoras materiais de identidades e genealogias.
Paralelamente, as grutas assumem um papel central enquanto espaços sagrados de natureza distinta, caracterizados por uma dimensão liminar e profundamente simbólica. Ao contrário do megalitismo, que constrói a monumentalidade, a gruta representa um espaço natural apropriada culturalmente. A sua utilização funerária e ritual associa-se frequentemente a conceções ligadas ao mundo subterrâneo. A deposição de restos humanos nestes contextos sugere práticas complexas, nas quais o ambiente cavernícola não é um simples recipiente, mas um agente ativo na construção do significado ritual.
A análise conjunta destes dois tipos de espaços permite compreender que o sagrado na Pré-história recente não se restringe a categorias arquitetónicas, mas emerge como uma lógica relacional entre práticas sociais, paisagem e cosmologia. Megálitos e grutas podem ser entendidos como expressões complementares de uma mesma necessidade de estruturar simbolicamente o mundo, negociar a presença dos mortos e estabilizar a memória social. Ambos configuram paisagens rituais onde o espaço é culturalmente produzido, experienciado e reiteradamente ressignificado.
Nota biográfica | Short Bio
Alexandra Águeda de Figueiredo (female). PhD in Archaeology and Prehistory by the Faculty of Letters, University of Porto (2007), Is Specialist in Prehistory and Underwater Archaeology. Participated in EU projects. Director of the Departmental Unit of Archaeology, Conservation and Heritage, until 2016. Responsible for the Laboratory of Archaeology, Conservation and Underwater Heritage in the Tomar Polytechnic Institute (Portugal) and collaborator in Laboratory of Applied Research in Natural Hazards. Coordinates postgraduate and master's degrees in Archaeology and Underwater Heritage since 2008. Responsible for numerous national and international projects in Archaeology and Heritage. Give lectures in the PhD degree in History and Archaeology in Autonomy Lisbon University and Salamanca University (Spain). Member of the I&D Unit of the Geosciences Centre – Group Quaternary and Prehistory, University of Coimbra – Faculty of Science and Technology (uID73). It has over one hundred articles published in national and international journals and books.
| Palavras-chave | Keywords | arqueologia; pré-história; megalitismo; grutas; enterramentos |
|---|