Palestrante
Descrição
Este trabalho propõe uma reinterpretação do santuário do Bom Jesus do Monte, em Braga, questionando a leitura historiográfica dominante que o enquadra sobretudo no contexto da religiosidade barroca e da Reforma Católica. Nesta trabalho, integra-se o caso do Bom Jesus num quadro analítico mais amplo centrado na relação entre paisagem e construção de identidades urbanas na Idade Moderna.
Adotando uma abordagem não empirista, que privilegia a paisagem como sistema relacional e simbólico, argumenta-se que o Bom Jesus deve ser entendido como parte de um programa mais vasto de produção de sentido urbano. Em vez de ser apenas um espaço devocional ou cenográfico, o santuário é interpretado como dispositivo ativo na reconfiguração da identidade de Braga, articulando geografia sagrada, memória e estratégias de poder. A sua implantação na periferia e a sua estrutura ascensional sugerem não apenas uma dramatização da experiência religiosa, mas também a projeção de uma nova centralidade simbólica que dialoga com a cidade existente.
Neste contexto, o Bom Jesus é relido não como mera metáfora espiritual, mas como instrumento de construção identitária, através do qual elites eclesiásticas procuraram responder a crises e fragmentações internas, promovendo uma imagem unificadora da cidade. O Bom Jesus surge, assim, como elemento-chave numa rede de lugares e significados onde o urbano e o religioso se interpenetram, evidenciando a interdependência entre espaço, poder e identidade.
Este estudo contribui para uma revisão crítica das narrativas tradicionais sobre o Barroco em Portugal, propondo uma leitura que valoriza a agência dos atores históricos e a complexidade dos processos de significação da paisagem urbana.
Nota biográfica | Short Bio
Arqueólogo com doutoramento em Arqueologia da Paisagem e pós-doutoramento em Ciências da Arte e do Património, Gustavo Portocarrero desenvolve investigação centrada na relação entre paisagem, identidade e cultura material na Idade Moderna. A sua formação interdisciplinar, aliando arqueologia, história da arte e museologia, sustenta uma abordagem inovadora ao estudo dos espaços urbanos e sacros. Autor de trabalhos sobre Braga, onde explora a construção de identidades urbanas através da paisagem, tem também publicado sobre cultura material, nomeadamente faiança e porcelana, e sobre sistemas defensivos e paisagens de poder. A sua experiência inclui direção de projetos arqueológicos, investigação internacional e participação em contextos museológicos. A comunicação proposta insere-se nesta linha de investigação, propondo uma releitura do Bom Jesus do Monte enquanto dispositivo de construção simbólica e identitária no contexto urbano bracarense.
| Palavras-chave | Keywords | Bom Jesus do Monte; paisagem; identidade urbana; geografia sagrada; Braga |
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