Palestrante
Descrição
A transformação do mundo rural nas últimas décadas alterou profundamente as relações entre território, comunidade, atividade agrícola e arquitetura. A mecanização da agricultura, a redução da população rural, o abandono de práticas e construções tradicionais, a alteração dos modos de produção e o crescimento de novas atividades associadas ao turismo e ao lazer conduziram a uma mudança de paradigma na ocupação e construção do território.
A arquitetura vernacular, tradicionalmente entendida como resultado de uma adaptação direta às condições locais, aos recursos disponíveis e aos modos de vida das comunidades, perdeu parte da sua função original. Casas, adegas, lagares, armazéns e outras estruturas agrícolas deixaram de responder exclusivamente às necessidades de uma economia de subsistência ou de uma agricultura familiar, passando a assumir novas funções, ou permanecendo como testemunhos de um modelo rural em transformação.
O estudo analisa esta mudança através da relação entre arquitetura vernacular, transformação socioeconómica e evolução da paisagem rural, procurando identificar os princípios que permanecem relevantes para a contemporaneidade. A análise evidencia uma passagem de uma arquitetura essencialmente funcional e produtiva para uma arquitetura frequentemente orientada para novos usos, valorização patrimonial, turismo, habitação e experiências de relação com o território.
Esta transformação coloca, contudo, uma questão fundamental: como preservar a identidade e os conhecimentos presentes na arquitetura vernacular sem transformar o património rural numa imagem estática ou numa representação do passado? Os resultados apontam para a necessidade de uma abordagem baseada na continuidade e na adaptação, capaz de reutilizar as estruturas existentes, reinterpretar técnicas e materiais locais e recuperar princípios de adaptação climática, economia de recursos e integração na paisagem.
A arquitetura vernacular deve ser entendida não como um conjunto de formas imutáveis, mas como um processo de construção do território em permanente transformação. O desafio contemporâneo consiste em estabelecer uma continuidade crítica entre memória e inovação, permitindo que a arquitetura continue a responder às necessidades do mundo rural atual sem perder a relação cultural, ambiental e material que historicamente a ligou ao lugar.
Nota biográfica | Short Bio
Lúcia Rosas licenciou-se em História na FLUP em 1980, prosseguindo os estudos com uma pós-graduação em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 1983. Em 1987 apresentou, na FLUP, as Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica, com o trabalho de síntese “A escultura românica nas igrejas da margem esquerda do rio Minho” e a lição sobre “Arte românica – restauro e conservação”.
Mais informação: https://id.letras.up.pt/geniusloci/ks_luciarosas/
| Palavras-chave | Keywords | mundo rural; arquitetura vernacular; transformação; património rural; reutilização; sustentabilidade. |
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