Palestrante
Descrição
Partindo de duas casinas (abrigos de pastor) em pedra seca no Planalto da Serra de Santo António, no Maciço Calcário Estremenho, este estudo explora a relação entre arquitetura vernacular, paisagem "sacralizada" e identidade territorial, interrogando o genius loci de um património rural simultaneamente quotidiano e estruturalmente vulnerável. Estas construções de autoria coletiva testemunham práticas pastoris e agrícolas, constituindo expressões materiais de um saber-fazer transmitido informalmente entre gerações.
A partir do levantamento de campo e análise tipológica-construtiva, discutem-se diferenças de escala, sistema de parede, travamento estrutural e execução da falsa cúpula, evidenciando distintos níveis de investimento técnico e domínio da construção em pedra seca. Estas variações refletem estratégias adaptativas às condições ambientais e às dinâmicas de mobilidade pastoril características do planalto calcário.
O enquadramento geológico e climático permite compreender como a litologia calcária dolomítica local, associada a um regime mediterrânico de precipitação concentrada, ciclos de humedecimento-secagem e stress térmico, acelera processos de dissolução, cristalização de sais e biodeterioração em estruturas expostas construídas sem argamassa.
No âmbito da conservação do património construído, discutem-se estratégias preventivas que articulam a estabilidade intrínseca da construção em pedra seca com abordagens contemporâneas de proteção de superfície. Paralelamente, exploram-se metodologias de conservação pelo registo, mobilizando fotogrametria 3D, modelação digital e inventário colaborativo enquanto ferramentas das humanidades digitais aplicadas ao património.
Este enquadramento dialoga com iniciativas recentes de valorização do saber-fazer em pedra seca e com esforços regionais de reconhecimento patrimonial, reforçando a necessidade de integrar documentação científica, conhecimento técnico e participação comunitária na salvaguarda destas arquiteturas vernaculares.
Nota biográfica | Short Bio
Sara Rodrigues é Mestre em Conservação e Restauro de Bens Culturais pela Universidade Católica Portuguesa. Trabalha como conservadora-restauradora na empresa Arqueologia e Património, Lda., com experiência em contextos arqueológicos, arquitetónicos e museológicos.
Ao longo do seu percurso académico tem procurado complementar a sua formação através de cursos de especialização nas áreas de arquitetura, arqueologia e tecnologias aplicadas ao património. Entre estes destacam-se o VIII Curso de Especialización en Arqueología de la Arquitectura, organizado pelo Consejo Superior de Investigaciones Científicas, pela Escuela Española de Historia y Arqueología.
O seu trabalho centra-se na conservação de património arqueológico, com interesse nas técnicas construtivas tradicionais e nos processos de degradação dos materiais. A sua experiência inclui ainda a participação em projetos de conservação aplicada a diferentes tipologias de património.
Participa regularmente em encontros científicos e integra redes internacionais na área da conservação do património como o International Institute for Conservation, ICOMOS e ICCROM.
| Palavras-chave | Keywords | Arquitetura vernacular; Casinas; Conservação preventiva; Pedra seca; Património rural. |
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