Palestrante
Descrição
Os centros urbanos históricos encontram-se, no tempo presente, atravessados por uma condição crítica de transição, marcada pela sobreposição de pressões como a financeirização do território, o agravamento dos riscos climáticos e a progressiva fragilização das condições de permanência das populações residentes. Nesse contexto, o patrimônio edificado deixa de ser compreendido apenas como objeto de preservação, passando a configurar-se como campo de disputa no qual se entrelaçam dimensões sociais, ambientais e políticas.
Apesar dos avanços teóricos no campo dos estudos do patrimônio, as práticas de preservação permanecem, em grande medida, dissociadas de questões estruturais como o direito à moradia, a justiça socioespacial e a adaptação às mudanças climáticas. Tal dissociação evidencia limites epistemológicos e operacionais que comprometem a capacidade do patrimônio de responder às transformações em curso.
O presente artigo tem como objetivo analisar criticamente essas tensões a partir da área central da cidade do Rio de Janeiro, território marcado por densas camadas materiais, imateriais e simbólicas. A pesquisa articula reflexão teórica com base em autores como Henri Lefebvre, David Harvey e Françoise Choay à análise de políticas urbanas e patrimoniais recentes, bem como às dinâmicas territoriais em curso.
Defende-se a necessidade de redefinir o patrimônio como território vivido, relacional e continuamente negociado, no qual a permanência se afirma como dimensão ética e política central em contextos de transição. Propõe-se, assim, um quadro integrado de intervenção que articula permanência territorial, reconhecimento das práticas imateriais, adaptação climática, reabilitação com uso social e ampliação da participação comunitária, deslocando o foco da preservação do objeto isolado para o território em sua complexidade, conflito e transformação.
Nota biográfica | Short Bio
Arquiteta e urbanista, mestre pelo PROARQ/UFRJ e doutoranda em Arquitetura pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Atua no campo do patrimônio arquitetônico, restauro e reabilitação urbana, com prática no desenvolvimento de projetos e na gestão de obras de grande escala e elevada complexidade. Foi Vice-Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) e é coordenadora da Comissão de Patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RJ), contribuindo para políticas públicas e para o debate crítico sobre patrimônio no Brasil. Sua atuação articula teoria e prática, com foco na permanência territorial, nas desigualdades urbanas e nos desafios contemporâneos da preservação. É professora na graduação e pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo.
| Palavras-chave | Keywords | Patrimônio urbano; Permanência territorial; Vulnerabilidade climática; Centros históricos; Justiça socioespacial |
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