Palestrante
Descrição
A abertura da Casa da Feitoria, ou Feitoria Inglesa, à visita pública, pela primeira vez na sua história, trouxe como principal desafio tornar legível um espaço historicamente exclusivo sem esvaziá-lo do que o define: a sua função, os seus rituais, a sua identidade e o seu uso continuado. É a partir desse problema que esta comunicação se constrói.
Apesar de edifício histórico, a Feitoria é um lugar vivo, ainda marcado por práticas sociais e institucionais próprias da comunidade britânica que tanto marcou o Porto setecentista e oitocentista. Abrir esse espaço ao usufruto público obrigou a lidar com tensões concretas: como dar acesso sem banalizar a experiência; como contar a história e o peso simbólico do lugar sem reduzi-lo a uma mera cristalização museológica; como introduzir infraestruturas e dispositivos necessários ao seu funcionamento contemporâneo sem comprometer a autenticidade e a leitura patrimonial do espaço; e como traduzir uma cultura de clube e de distinção social sem a apagar nem a caricaturar.
A comunicação defende que este tipo de abertura não deve ser pensado como musealização, mas como uma forma de mediação patrimonial em contexto de uso. No caso da Feitoria, a visita funciona menos como dispositivo de exibição e mais como ferramenta de regulação do acesso, interpretação do lugar e negociação entre preservação, identidade e fruição pública. O caso permite discutir a abertura controlada de patrimónios vivos como prática de gestão patrimonial e como resposta possível à necessidade de alargar o acesso e reforçar a sustentabilidade cultural destes espaços.
Nota biográfica | Short Bio
Ana Marques é licenciada em História da Arte e mestre em História da Arte Portuguesa e em Museologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Especializou-se em conservação preventiva através de formação e estágios no English Heritage e no Victoria & Albert Museum, em Londres. Iniciou o seu percurso profissional no Templo-Monumento de Santa Luzia, em Viana do Castelo, onde coordenou a requalificação do arquivo histórico e assumiu funções de conservadora de museu. Desde 2020, trabalha no WOW Porto como conservadora preventiva e co-gestora de coleção, com responsabilidade nas áreas de inventário, conservação, estudo de coleção, monitorização ambiental, visitas orientadas e produção de conteúdos. Coordenou o projeto de musealização e abertura ao público da Feitoria Inglesa, no Porto, em 2025. É também autora e coautora de publicações na área do património e dos museus.
| Palavras-chave | Keywords | Feitoria Inglesa; Museologia; Mediação Patrimonial; Acesso público; Conservação Preventiva |
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