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Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa de doutorado que investiga as práticas musicais que acompanhavam as exibições cinematográficas na Paraíba durante o período do cinema dito “silencioso”, mas que não era, de fato, ausente de som ou música,
nas primeiras décadas do século XX. O objetivo é compreender como essas práticas musicais se configuraram em diferentes contextos de exibição e de que modo contribuíram para a experiência estética e social do cinema nesse período. A pesquisa parte da constatação de que a historiografia do cinema e da música no Brasil ainda dedica pouca atenção às práticas musicais que acompanharam as projeções cinematográficas, segundo Carvalho (2017), principalmente fora dos grandes centros, o que torna necessário ampliar o olhar para contextos regionais e locais. Nesse sentido, o estudo busca identificar e analisar diferentes formas de acompanhamento musical presentes nas salas de cinema paraibanas, considerando a diversidade de formações instrumentais e repertórios utilizados.
Metodologicamente, o trabalho baseia-se na análise de fontes históricas, sobretudo jornais, livros e memória oral articuladas a abordagens da musicologia histórica, tendo sido feito um levantamento preliminar nos acervos do Jornal A união (PB), Jornal do Commercio (PE), Fundação casa José Américo, Hemeroteca digital brasileira, além de entrevista com a bisneta de uma das pianistas do cinema Paraibano. As fontes interpeladas apontam para uma diversidade musical que articulavam referências cosmopolitas e práticas musicais brasileiras.
Assim, o estudo dialoga com reflexões sobre música, história, sociedade e ideologia, além de trazer contribuições para a historiografia musical latino-americana, buscando compreender como essas práticas musicais se inseriram em processos mais amplos de circulação cultural e construção de identidades. Ao investigar essas experiências sonoras do cinema mudo na Paraíba, a pesquisa contribui para ampliar a compreensão das relações entre música e cinema no Brasil, evidenciando a diversidade de práticas musicais que marcaram a história da exibição cinematográfica no país. Os resultados apontam para o fato de que o cinema dito "silencioso” poderia até ser um espaço que exibia produções cinematográficas sem áudio, mas o cinema, de fato, era um espaço de plena prática musical. Além das formações musicais e repertórios, a pesquisa analisa como essas performances se relacionavam com os espaços de exibição, as circulações entre músicos e grupos musicais e a escuta do público. A imprensa da época também revela questões sobre gosto musical e hierarquias estéticas e políticas como a valorização de determinadas práticas e músicas em detrimento de outras. Para tanto, a pesquisa se apoia em abordagens da musicologia histórica e da historiografia musical que enfatizam a relação entre música, contexto social e processos culturais, presentes em autores como Paulo Castagna, Maria Alice Volpe e Ralph P. Locke, bem como em discussões sobre práticas sonoras no cinema silencioso desenvolvidas por Rick Altman.