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Description
Este trabalho propõe um diálogo teórico-empírico fundamentado nos pressupostos etnográficos de Bronislaw Malinowski, particularmente nas proposições metodológicas e epistemológicas delineadas em seu texto Introdução de Os Argonautas do Pacífico Ocidental. O objetivo desta pesquisa é dialogar com tais fundamentos clássicos com a realidade sociocultural das comunidades caiçaras situadas no litoral sul brasileiro, partindo de uma perspectiva que valoriza a imersão e a observação sistemática das dinâmicas locais.
Para a construção desse cenário, a pesquisa ampara-se nos estudos de base etnomusicológica da cultura caiçara, sobretudo do Fandango Caiçara, desenvolvidos recentemente por Pereira (2025), Lins e Pedrosa (2024), Lins (2023), Alves (2021) e Pedrosa (2018). No âmbito específico da etnomusicologia, a discussão expande-se através das provocações conceituais de Timothy Rice (2014) em sua obra Ethnomusicology: A Very Short Introduction, que fornece as ferramentas necessárias para analisar a centralidade das práticas musicais na vida social. Essa base teórica é aproximada da realidade do Fandango Caiçara, recorrendo-se a textos referenciais como a obra O Museu Vivo do Fandango (Pimentel et al., 2006), que documenta a vitalidade dessa expressão. Complementarmente, o trabalho debruça-se sobre a dimensão institucional e política da salvaguarda, analisando documentos cruciais como o Dossiê do Fandango Caiçara (IPHAN, 2011) e o mais recente Parecer de Revalidação (IPHAN, 2025). Tal análise busca compreender as transformações e permanências do Fandango enquanto Patrimônio Cultural do Brasil, cruzando o olhar da etnografia clássica com os desafios contemporâneos da preservação cultural.
O cerne da discussão repousa na aplicação do conceito de "imponderáveis da vida real" (imponderabilidade). Segundo Malinowski (1976), o tecido social não se restringe a estruturas formais ou dados estatísticos, mas é vivificado por detalhes cotidianos, interações informais e gestos sutis que constituem a "carne e o sangue" da existência coletiva. No universo caiçara, esses elementos afloram na lida pesqueira, na comensalidade tradicional e, primordialmente, no "papo" despretensioso entre mestres e aprendizes. A música, consubstanciada na “viola machete” e na performance do Fandango, emerge como o epicentro dessa imponderabilidade, funcionando como um "idioma das memórias". Através de relatos de campo, o texto descreve encontros significativos, como o diálogo com uma detentora de saberes de 93 anos, cujas experiências demonstram que a performance musical atua como uma poderosa chave mnemônica, capaz de despertar uma ancestralidade latente e acessar estratos da consciência que métodos de inquirição estruturada tendem a negligenciar.
Nesse sentido, o trabalho problematiza a busca pela neutralidade científica em voga na antropologia clássica, contrapondo-a à valorização da subjetividade e da experiência intersubjetiva entre pesquisador e colaborador. Argumenta-se que a música não é um objeto de estudo estanque, mas uma força motriz que organiza a vida comunitária e preserva a identidade frente às pressões da urbanização acelerada e da especulação imobiliária. A metodologia busca reafirmar, portanto, o preceito de "viver entre os nativos" como condição sine qua non para captar os modos típicos de pensar e sentir. As reflexões se encaminham para um entendimento da salvaguarda do bem patrimonializado Fandango Caiçara depende fundamentalmente do sentido ontológico que cada sujeito atribui à sua própria prática. Propõe-se uma postura ética e sensível que permita ao investigador dialogar com os saberes locais de forma autêntica, reconhecendo que a compreensão profunda de uma cultura reside na capacidade de interpretar tanto a sua "anatomia" institucional quanto o seu "espírito" vivificado na prática cotidiana e sonora do Fandango.
Palavras-chave: Malinowski; Cultura Caiçara; Etnomusicologia; Fandango Caiçara; Memória;
REFERÊNCIAS
Adams, C. (2000). As populações caiçaras e o mito do bom selvagem: A necessidade de uma nova abordagem interdisciplinar. Revista de Antropologia, 43(1), 145–182. https://doi.org/10.1590/S0034-77012000000100005
Alves, C. (2021). Do tamanco ao tambor: As ressignificações da prática do fandango em Antonina/Paraná no século XX [Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Paraná]. Repositório Institucional da UFPR.
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. (2011). Dossiê de registro do fandango caiçara. http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossi%C3%AA%20Fandango%20Caicara.pdf
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. (2025). Parecer Técnico nº 126/2025/COTEC IPHAN-PR/IPHAN-PR: Parecer técnico de reavaliação para a revalidação do fandango caiçara como bem registrado (Processo nº 01450.000771/2022-85). Iphan. https://www.gov.br/iphan/pt-br/assuntos/noticias/SEI_IPHAN6880314ParecerTcnico.pdf
Lins, J. A. P. N. (2023). Machete caiçara: Práticas, organologia e ensino [Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Paraná]. Repositório Institucional UFPR.
Lins, J. A. P. N., & Pedrosa, F. G. (2024). Uma investigação acerca da viola caiçara em Itapoá, Santa Catarina. Revista Orfeu, 9(2), 2–22. https://doi.org/10.5965/2525530409022024e0206
Malinowski, B. (1976). Argonautas do pacífico ocidental: Um relato do empreendimento e da aventura dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné melanésia (Vol. 43). Abril Cultural. (Obra original publicada em 1922)
Pedrosa, F. G. (2018). Passado e presente nos modos de fazer fandango caiçara em Paranaguá/PR. Revista InCantare, 9(1), 1–108.
Pereira, E. H. (2025). A viola caiçara na Folia do Divino de Guaratuba-PR: Usos e funções [Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Paraná]. Repositório Institucional da UFPR.
Pimentel, A., Gramani, D., & Corrêa, J. (Orgs.). (2006). Museu Vivo do Fandango. Associação Cultural Caburé.
Rice, T. (2014). Ethnomusicology: A very short introduction. Oxford University Press.