Speaker
Description
Nesta comunicação, apresento resultados parciais de minha pesquisa dedicada ao estudo do idiomatismo do cavaquinho brasileiro, com foco na utilização de sua prática performática do início do século XX, em obras da música de concerto escrita em partitura. A investigação fundamenta-se em um panorama histórico sobre a trajetória do instrumento na música popular urbana brasileira, especificamente no universo do choro, estruturado a partir do cruzamento de fontes primárias, como gravações históricas, iconografia, e revisão bibliográfica.
O cerne da discussão reside no conceito de “idiomatismo rítmico”. Argumento que o cavaquinho, tradicionalmente um instrumento de transmissão oral, possui uma gramática de levadas e acentuações que define algumas sonoridades presentes do universo do choro. Observa-se que, enquanto compositores como Luciano Gallet, Ernesto Nazareth e Heitor Villa-Lobos buscaram transcrever essa expressão rítmica para outros instrumentos como o violino ou piano, Camargo Guarnieri efetivamente utilizou o cavaquinho em sua instrumentação na obra Flor do Tremembé (1937).
Contudo, é na figura de Heitor Villa-Lobos que encontramos uma intercessão profunda entre a música de concerto e a música popular, mais especificamente o ambiente da roda de choro. Dada a sua reconhecida vivência como "chorão", realizo um estudo de caso focado no Choros n. 7. A análise busca relacionar passagens específicas da obra a registros fonográficos da época e aos primeiros métodos para cavaquinho editados a partir da década de 1930.
A hipótese central sustenta que Villa-Lobos não apenas emulou o ambiente do choro em suas obras, mas foi um dos pioneiros na grafia idiomática da rítmica do cavaquinho, antecipando padrões de escrita que só se consolidariam décadas depois. Ao confrontar a partitura com a prática dos músicos que participavam dos conjuntos regionais (agrupamentos musicais típicos nos acompanhamentos de músicas populares, consolidados nas décadas de 1930 e 1940), o estudo revela nuances de articulação e acentuação que permanecem pouco exploradas na literatura especializada, contribuindo para uma compreensão mais técnica do papel do cavaquinho de acompanhamento e sua representação na música de concerto brasileira.
Cavaquinho; Heitor Villa-Lobos; música brasileira.