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Este trabalho propõe uma investigação teórica para a noção de obra musical a partir da assombrologia, ou hauntology, conceito introduzido por Jacques Derrida e transposto para a crítica musical por autores como Mark Fisher. A investigação desafia a visão tradicional de obra como uma entidade estável e formalmente fechada, defendendo, em contrapartida, uma ontologia assombrada. Nela, a música pode ser compreendida como um fenômeno espectral, atravessado por dimensões espaço-temporais complexas que transcendem a presença física ou a análise estruturalista, incorporando agências, historicidades e a circulação de afetos nela empreendidos.
O ponto de partida escolhido para a investigação é o cenário político do início da década de 1990, marcado pela queda do muro de Berlim e a vitória do liberalismo sobre o comunismo após a Guerra Fria. Fukuyama defendeu que a humanidade tinha chegado ao seu ápice histórico e político, chamando isso de o fim da história. Derrida, por sua vez, respondeu a essa asserção com a tese de que o passado, exemplificado pelos espectros de Marx e do comunismo, continuariam a assombrar o presente. Essa condição espectral instaura um agora desencaixado, onde o invisível e o intangível exercem agência sobre a realidade.
No campo musical, esse diagnóstico se manifesta na falência das utopias modernas e na suspensão de futuros, resultando no fenômeno que Simon Reynolds classifica como retromania: um ciclo de reciclagem e nostalgia onde a criação de novas formas é substituída pela remasterização do passado. Mark Fisher denomina essa experiência de assombrologia sônica, na qual as disjunções temporais ocupam um primeiro plano, evidenciando uma melancolia por futuros que nunca se realizaram.
A discussão ontológica é aprofundada através do diálogo com a estética analítica. Utiliza-se a crítica de Nelson Goodman à contemplação passiva, reforçando que a experiência estética é dinâmica e indissociável dos ecos do passado e das promessas do futuro. Nesse sentido, a obra musical não é estática, ela reorganiza o mundo e é reorganizada por ele. Para tal, o texto recorre a Lydia Goehr e sua categorização do conceito-obra como algo aberto, regulativo, projetivo e emergente. Essa fluidez demonstra que nem a obra, nem o conceito que a sustenta, são existências finalizadas, estando sempre sujeitos a modificações conforme o contexto em que emergem.
Conclui-se que a obra musical habita uma zona de densidade ontológica onde a pergunta sobre “para onde vai a música quando não é tocada” revela sua natureza espectral, desconstruindo e desafiando a ideia tradicional de objeto e de presença. A permanência da obra é instituída, além da sua forma, pela memória e pela sensação, assim como depende de engrenagens históricas e sociais, funcionando como um objeto de potencial infinito, isto é, sempre que aparece, pode ser diferente. Ela não só transita pelo tempo de forma desconjuntada, como depende dessa complexidade para acontecer. Assim, a assombrologia oferece uma via crítica para a musicologia e a análise contemporânea, além de uma compreensão mais porosa e eticamente engajada da existência musical e seu lugar na história.
Palavras-chave: Obra Musical; Ontologia Musical; Assombrologia; Presença Musical; Temporalidade Musical.