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A modinha do século XIX consolidou-se como um gênero de caráter íntimo e
expressivo, frequentemente associado aos ambientes domésticos e às elites letradas
do Brasil imperial. Do ponto de vista estético, caracteriza-se por melodias de relativa
simplicidade, andamento moderado e certa carga afetiva, frequentemente voltada à
expressão de sentimentos como a saudade, a melancolia e a idealização amorosa.
Nesse contexto, a estreita relação entre música e poesia constitui um de seus
elementos estruturantes, uma vez que grande parte do repertório se organiza a partir
da musicalização de textos poéticos preexistentes.
A prática de musicar poesias no século XIX insere-se em uma tradição que
articula produção literária e realização musical em circuitos sociais compartilhados.
Poemas curtos, frequentemente organizados em redondilhas maiores e com
esquemas de rima simples, mostravam-se particularmente adequados à adaptação
musical, favorecendo a clareza da dicção e a inteligibilidade do texto cantado. Tal
configuração evidencia não apenas uma convergência formal entre verso e melodia,
mas também uma intensificação do conteúdo expressivo, na medida em que a música
atua como elemento amplificador das imagens e afetos inscritos na poesia.
Nesse contexto, destaca-se a produção de Miguel Archanjo Benício de
Assumpção Dultra (1812–1875), músico ituano e artista multifacetado negro que atuou
em diversas localidades do interior da Província de São Paulo. A obra Modinha –
Letras compostas pelo Dr. Francisco da Costa Carvalho, irmão de Dona Mariquinha, e
postas em música em Fevereiro de 1852 em Piracicaba, exemplifica essa prática ao
articular música e poesia de autores distintos, evidenciando uma dinâmica colaborativa
característica do período.
A análise documental da fonte primária, bem como sua transcrição
musicológica, permite investigar não apenas os aspectos musicais, mas também a
construção do texto poético e sua adaptação ao discurso musical. Essa relação
evidencia como a música potencializa imagens e afetos já presentes nos versos, como
a melancolia sugerida pela típica sensibilidade romântica.
Por fim, a recuperação e transcrição dessa obra não apenas viabilizam sua
reinterpretação no presente, mas também contribuem para o aprofundamento dos
estudos sobre a música paulista oitocentista. A obra de Dultra integra, assim, o
patrimônio imaterial, reafirmando a importância do gênero como prática de intersecção
entre música e poesia no Brasil do século XIX.