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Resumo. O artigo propõe uma reflexão crítica sobre o apagamento feminino no ambiente musical brasileiro da primeira metade do século XX, ampliando o escopo da análise musical para além da partitura, ao incorporar dimensões históricas, sociais e iconográficas. Como eixo central da investigação, emerge o seguinte questionamento: onde está a Sonata para violino e piano composta por Adélia Lindemberg Bulcão? A partir dessa pergunta, o estudo desloca seu foco para o mistério em torno dessa obra desaparecida, utilizando-a como símbolo das lacunas historiográficas que marcam a presença feminina na música brasileira. O ponto de partida é o programa de uma audição da classe de composição de J. Octaviano, realizada em 1941 na Escola Nacional de Música, no qual se observa uma participação majoritariamente feminina. Paradoxalmente, apesar dessa expressiva presença no ambiente acadêmico, as compositoras ali representadas – entre elas Adélia Lindemberg Bulcão – não alcançaram reconhecimento duradouro, tendo suas trajetórias e produções em grande parte apagadas da memória institucional. A investigação mobiliza documentação iconográfica, como fotografias, programas de concerto e periódicos, articulada ao método de análise de imagens de Panofsky, a fim de compreender os mecanismos de visibilidade e invisibilidade de gênero. Nesse contexto, a ausência da sonata de Adélia deixa de ser um caso isolado e passa a representar um fenômeno mais amplo: o desaparecimento material e simbólico da produção feminina. As evidências apontam para um contraste significativo entre os espaços de formação e de atuação profissional. Enquanto o meio acadêmico apresentava ampla participação feminina, muitas vezes majoritária, o mercado de trabalho musical era dominado por homens. Essa discrepância é interpretada à luz de condicionantes sociais que direcionavam as mulheres a papéis restritos, como o ensino, o canto orfeônico e o ambiente doméstico, frequentemente afastando-as da carreira composicional e da circulação pública de suas obras. A escassez de registros sobre compositoras como Edith de Souza Lopes e a própria Adélia Lindemberg Bulcão reforça a hipótese de um apagamento estrutural. No caso específico da sonata, sua ausência em acervos, catálogos e registros institucionais levanta questões sobre preservação, circulação e valorização da produção feminina. Teria a obra sido perdida, nunca publicada, ou simplesmente negligenciada pelos processos de legitimação historiográfica? As análises iconográficas evidenciam ainda uma hierarquização simbólica nos registros visuais, nos quais homens ocupam posições centrais, enquanto mulheres aparecem nas margens, refletindo sua posição social e profissional. Assim, o mistério da sonata de Adélia Lindemberg Bulcão torna-se um ponto de convergência para discutir não apenas uma obra ausente, mas todo um repertório silenciado. Conclui-se que o desaparecimento dessa sonata não deve ser entendido como um caso isolado, mas como sintoma de um processo histórico de invisibilização. O artigo, portanto, propõe não apenas a busca por essa obra específica, mas a revisão crítica da historiografia musical brasileira, com vistas à recuperação de trajetórias e repertórios femininos que permanecem à margem da memória cultural.