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Description
O Bumba Meu Boi do Maranhão configura-se como um complexo sistema ritual no qual música, performance corporal, organização social e devoção religiosa se articulam de forma indissociável. Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial nacional (2011) e internacional (2019), esse bem abarca uma totalidade expressiva onde a dimensão imaterial dos saberes é salvaguardada pela materialidade de seus objetos e espaços sagrados. No interior desse sistema, notadamente nos grupos de sotaque de orquestra da região do Munim e da Ilha de São Luís, a figura do banjoísta ocupa uma posição central que extrapola a função estritamente musical. Diante das tensões geradas pelos processos contemporâneos de apropriação e espetacularização cultural, o problema central desta pesquisa investiga de que maneira a agência do banjo tenor atua como mediadora ritual para preservar a integridade do rito. Parte-se da hipótese de que o banjoísta exerce uma função de mediação que organiza musical e espiritualmente o terreiro, operando uma tecnologia sonora que mantém o fundamento, o núcleo inegociável da obrigação litúrgica. Argumenta-se que essa agência garante a eficácia ritual e a comunicação com os Encantados (entidades espirituais do panteão maranhense), permitindo que o músico atue como um autêntico mediador nas festividades de "promessa" (votos devocionais e comunitários). Para dar conta dessa complexidade, o estudo promove um deslocamento analítico ao cruzar a Etnomusicologia e a Organologia Cultural, a partir de autores como Mantle Hood (1982) e Eliot Bates (2012), com a História das Religiões e o Pensamento Decolonial. A metodologia, de caráter etnográfico e qualitativo, assume a perspectiva bi-musical e interna ao campo. Por meio da observação participante focada nos ritos de Batismo e Morte do boi no contexto do Munim, analisa-se como o banjoísta exerce uma regência de terreiro.