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Este trabalho analisa a contribuição do Prof. Dr. Carlos Sandroni para a etnomusicologia e a educação musical, identificando como sua práxis opera uma contracolonização das estruturas de saber que historicamente subalternizaram as práticas musicais afro-brasileiras. Sandroni não apenas estuda as músicas populares, mas opera um movimento de contracolonialismo — nos termos de Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo) — ao defender e fortalecer modos de vida próprios frente ao ataque das normas eurocêntricas que tentam classificar o orgânico como algo inferior ou desviante. O objetivo é apresentar quatro importantes e conhecidos trabalhos de Sandroni — o livro Feitiço Decente, o dossiê do Samba de Roda para o IPHAN, o projeto que culmina em CD e livreto Responde a Roda Outra Vez (realizada pelo Núcleo de Etnomusicologia da UFPE e coordenado por Sandroni) e a comunicação Uma roda de choro concentrada (Sandroni, 2000, 2001; 2004; 2012 [2000]) — e discutir sua importância para o estabelecimento de uma gnose musical autônoma.
A metodologia fundamenta-se em uma análise bibliográfica e documental, articulando a produção de Sandroni com a filosofia de Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), buscando entender como o "envolvimento" e o "saber orgânico" desafiam a lógica sintética do desenvolvimento colonial. No capítulo "Premissas Musicais" de Feitiço Decente, Sandroni opera uma "guerra das denominações" (Bispo, 2023, p.4) ao refletir sobre o conceito de "síncope", que opera de formas distintas nas músicas européias e afro-brasileiras. Enquanto na primeira a síncope é qualquer alteração deliberada do pulso ou métrica “normal” (Sandroni, 2012, p.23), na segunda o conceito se tornou nativo para definir nossa música que é baseada na adição de ritmos, soando “contramétrica” para os ouvidos ocidentais. Ao realizar suas análises reconhece os ritmos afro-brasileiros como um campo epistêmico detentor de sofisticação técnica e cosmologia própria.
Essa valorização dos saberes é ampliada no Dossiê do Samba de Roda do Recôncavo Baiano (IPHAN) e no CD "Responde a Roda Outra Vez" (Sandroni, 2001; 2004), nos quais a pesquisa se estabelece como um espaço de afirmação identitária e política. Nestes projetos, Sandroni promove uma confluência dialógica entre o arquivo histórico e a comunidade viva, rompendo com a visão do pesquisador como único sujeito do conhecimento operando processos que viabilizam salvaguardas e fortalecem a transfluência entre as gerações — um movimento de "começo, meio e começo" que preserva a trajetória coletiva (Bispo, 2023, p. 31).
No texto "Uma roda de choro concentrada", o autor traz implicações fundamentais para a educação musical ao afirmar que: "Nas culturas populares, os modos-de-fazer são tão ou mais importantes do que os conteúdos; em todo caso, ambos estão inextricavelmente ligados" (Sandroni, 2000, p.9). Apresenta palavras melhores sobre esse contexto: “em vez de falar em ensino ‘informal’ ou ‘assistemático’, seria muito mais realista falar em ensino ‘invisível’, ou ‘não-explícito’” (Sandroni, 2000, p. 3). Conclui-se que, embora Sandroni não adote explicitamente o jargão decolonial e contracolonial em todos os textos, sua prática promove um efetivo desprendimento das normas coloniais, essencial para uma etnomusicologia que respeite a pluralidade e a autonomia sociocultural das diásporas e culturas populares.