Speaker
Description
Nesta comunicação, problematizo um recorte de meu trabalho de doutorado, refletindo sobre a obra poética e de pesquisa folclórica do pernambucano Ascenso Ferreira (1895-1965). Sendo poeta e também pesquisador da cultura popular, Ascenso representaria um possível movimento de equilíbrio (claro, com suas idiossincrasias) entre dois polos, a criação artística e a pesquisa. Em sua carreira, entendo que ele coloca em prática a ideia de seu amigo e muitas vezes mentor Mário de Andrade, de que o contato dos artistas eruditos com o material folclórico (os “documentos de que ele tanto fala) proporcionaria o fundamento para a criação artística de caráter nacional, fortalecendo o que seria uma entidade nacional. Aqui reside nosso interesse (etno)musicológico: se o instigante poeta Ascenso não foi um folclorista tão científico e referenciado, sua poesia – e principalmente em sua performance vocal – davam conta de elementos sensíveis, inclusive musicais, dos fenômenos culturais então conhecidos como folclore (e que hoje são entendidos como formas de expressão do patrimônio imaterial). Nessas suas declamações, em conjunto com a leitura que podemos fazer de seus textos, Ascenso dá sua “intepretação” ou quase um testemunho etnográfico. Como diz Caetano Veloso, se temos uma ideia incrível, melhor é fazer uma canção. Interpreto essa trajetória criativa do poeta e declamador Ascenso a partir da noção de movimento tradutório colocada por Cecília Salles em seu livro Gesto inacabado. Salles nos ensina que todo criador está sempre realizando um movimento de “tradução” de elementos sensíveis, de um lugar para o outro. O contato com a cultura popular fomentaria essa tradução para um mundo “letrado” ou “erudito”, quase camerístico, da declamação solitária. Estariam os encantados com Ascenso na hora de sua declamação? Entendo a noção de folclore a partir da leitura de Elizabeth Travassos, que atualiza a do próprio Mário de Andrade, de que seria “o reconhecimento de uma espécie de fenômenos culturais e de uma ciência que deles se ocupa” (Travassos, 2002). O folclore musical seria esse fenômeno cultural associado às sonoridades, aos instrumentos musicais, às formas de expressão vocal, o que fundamentou inclusive a Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938, coordenada por Mário de Andrade. A noção de performance poética é inspirada no teórico da literatura Paul Zumthor, quando considera a centralidade da voz na realização simbólica da poesia. Essa simbolização, através do corpo, da voz, da troca de energias entre poeta e público, seria a performance, seria a oralidade, que estaria na raiz de toda e qualquer poesia, pois ler é também performar. Entre ciência e arte, criação e leitura, exploro limites e horizontes de compreensão.
Palavras-chave: Ascenso Ferreira; folclore musical; performance poética; movimento tradutório.
Referências
Travassos, Elizabeth. Mário e o folclore. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, n. 30, p. 91-109, 2002.