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Description
Com base nas gravações lançadas em disco pela Orquestra Armorial de Câmara de Pernambuco e pelo Quinteto Armorial, nos anos 1970, buscamos traçar uma caracterização do repertório de ambos os grupos a partir da observação de figuras de estilo, procedimentos composicionais, formas e gêneros mais constantes, de modo a podermos delimitar o que se convencionou chamar de música armorial. Também levamos em conta, no âmbito conceitual, a conformação ideológica da música armorial, moldada pelo pensamento regionalista do sociólogo Gilberto Freyre, pelo Ensaio sobre a música brasileira de Mário de Andrade e pela construção de discurso do escritor Ariano Suassuna, idealizador do Movimento Armorial. Essa conformação ideológica, sobretudo, materializou-se antes do lançamento do Movimento em determinadas obras da fase nacionalista do compositor fluminense César Guerra-Peixe, que residiu no Recife de 1949 a 1952 e criou seu primeiro círculo de alunos, do qual fizeram parte Jarbas Maciel, Clóvis Pereira, Capiba e Sivuca (os três primeiros, mais tarde, colaboradores do Movimento). Tais obras tinham como peculiaridade o emprego de gestos musicais típicos de algumas manifestações folclóricas do interior do Nordeste Oriental, princípio seguido por um grupo experimental arregimentado por Ariano Suassuna em 1969 e que serviu de base para a configuração da Orquestra Armorial. Esta foi formatada como uma camerata de dimensões barrocas e prescindiu de instrumentos populares, por questões alegadas de afinação. Contudo, Ariano persistiu na ideia de constituir um ensemble menor e que incorporasse os instrumentos relegados na Orquestra Armorial, dois pontos fulcrais de discordância com os principais músicos daquele grupo, o que motivou o escritor a lançar o Quinteto Armorial. Dessa forma, a música armorial, em sua origem, ficou marcada pela coexistência de duas vertentes estéticas, embora condicionadas por um mesmo paradigma ideológico e organológico, como iremos perpassar.